AcessibilidadeFeaturedRicardo Inforzato

Vamos falar de Acessibilidade?

Imagine-se na seguinte situação. É dia de jogo. Você tem seu ingresso para ir ao estádio. Está radiante e feliz. Já separou o Manto Sagrado que vestirá. Já tem em mente o som da torcida e os cantos todos ensaiados. Não vê a hora de chegar, avistar a Arena, as luzes, sentir o calor da Fiel e se imaginar sentado em seu lugar preferido, seja na Norte, na Leste, onde for e onde você se sente bem.

Terço sobre o uniforme do Corinthians
Foto: Ricardo Inforzato

Porém, de repente, você cai em si e percebe que terá inúmeras, centenas de dificuldades para conseguir realizar essa coisa simples, que é ir ao estádio acompanhar seu clube de coração. E por que isso? Simplesmente porque você é uma pessoa portadora de algum tipo de deficiência e o mundo não está preparado e nem quer se preparar para você!

Pois essa é a realidade de centenas de milhares de brasileiros. E enquanto você lê este texto, há muitos cadeirantes sem conseguir, por exemplo, ir até a rua, dar a volta no quarteirão de sua casa e tomar um pouco de sol.

cadeirante carregado estação acima
Foto: Fábio Guimarães – Extra-RJ

As dificuldades para que uma pessoa com deficiência – PcD – consiga realizar com dignidade tarefas cotidianas são, no Brasil, gigantescas. O grande mal de nosso país é ter uma formação cultural rasa, com Educação cada vez menos qualificada, somados ao famoso “instinto de sobrevivência” que faz o brasileiro pensar quase que unicamente em si mesmo e em sua família e pouco se importar com o próximo e com o país como nação. Assim, vivemos numa sociedade que praticamente joga às suas margens pessoas que possuem necessidades especiais. Em vez de ampará-las e darmos dignidade para que se mostrem a sua eficiência, nosso país prefere que elas fiquem segregadas, sem as mínimas condições para ir e vir, entre tantos outros direitos que todos devemos ter.

 

Nesse contexto, há alguns anos vejo vozes surgindo e clamando por melhores condições de vida e de acolhimento para as PcD’s. Dentre essas vozes, uma se destaca: a de Ronald Santos, conhecido nas redes sociais como Ronald Capita (@RonaldCapita). Ronald, hoje com seus 20 anos, começou desde cedo a levantar sua voz para que olhemos as condições de vida das PcD’s. Aos 16 anos, iniciou uma campanha pela “Acessibilidade nos Estádios”. Essa campanha contou, e ainda conta, com o apoio de inúmeros jogadores, jornalistas e outras personalidades, que gravaram vídeos pedindo aos clubes para adaptarem seus estádios ao uso de pessoas com deficiência.

Guilherme Mantuan e Ronald Capita
Guilherme Mantuan e Ronald Capita na comemoração da 10a conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Foto: arquivo pessoal de Ronald Capita.

Sobre o Ronald, vale contar um pouco sobre quem ele é: um rapaz apaixonado por Jornalismo, mas que têm diariamente uma luta enorme contra sua condição de vida: é portador da rara síndrome de Marfan, que limitou suas capacidades físicas e o tornou cadeirante. Além disso, o Marfan já trouxe outras graves consequências a ele, como descolamento de retina e problemas auriculares, além de uma grave escoliose, que dificulta bastante a respiração do rapaz, pois a coluna entortada comprime seus pulmões e coração. Ronald já passou por dezenas de cirurgias em sua vida, das mais diversas possíveis, já foi até desenganado por médicos, porém, sempre venceu essas batalhas com muita garra, encarando de frente todas as dificuldades. Inclusive as financeiras, que acabam por aumentar suas limitações. Apesar de tudo isso, o cara está sempre esperançoso, sorridente e é um dos melhores amigos que eu tenho. Uma das coisas que ele costuma dizer é que sempre lutará pela vida, pois já entendeu que sua missão é inspirar outras pessoas a conseguirem um mundo melhor. Só por isso e por ver a sinceridade com que ele diz essas palavras, eu considero Ronald Capita como um ídolo em minha vida e uma inspiração para tudo o que faço.

 

A luta de Ronald Capita por acessibilidade e melhores condições nos estádios e locais esportivos para receberem pessoas com deficiência deveria ser a luta de todos nós. Que maravilha seria ver o torcedor do Corinthians cobrando para que o Allianz Parque tivesse mais acessibilidade, ou que o torcedor do Rivale exigisse que o Morumbi fosse 100% acessível, e que, nessa vibe, o são-paulino cobrasse da Vila Belmiro respeito aos PcD´s e, por sua vez, o santista fizesse sua parte e cobrasse que a Arena Corinthians seja totalmente amigável a quem tem deficiência. Porque essa deve ser uma exigência diária de todos, sem clubismo, para que o Brasil dê um importante passo rumo a virar um país de primeiro mundo.

As dificuldades de Ronald Capita para assistir a jogos nos estádios brasileiros. Foto: Arquivo pessoal do Ronald Capita.

 

Duas considerações importantes sobre esse tema:

  1. Lutar pela Acessibilidade não é fazer caridade. É, antes de tudo, lutar por CIDADANIA. Eu já estive em diversos outros países e vejo essa questão tratada sempre com seriedade. A própria pessoa com necessidades especiais não quer ser vista como “coitado” ou com pena. Lá fora, as PcD’s lutam por autossuficiência e invariavelmente conseguem isso. É muito comum ver cadeiras motorizadas trafegando pelas calçadas bem sinalizadas e muito bem conservadas, sem saliências ou rachaduras. É muito normal ver pisos táteis em todos os locais públicos ou de grande circulação de pessoas. É corriqueiro ver o acesso fácil a pessoas com cães-guias. Ou placas, cardápios e sinalizações escritos também em braile. Outra coisa que vale lembrar: na vida, nós nunca “somos”, nós sempre “estamos”. Há uma linha muito tênue entre ser o que a sociedade considera uma pessoa normal para tornar-se uma pessoa com deficiência. Basta uma queda, por exemplo, para que alguém se torne um cadeirante. Basta um acidente para que toda a vida seja transformada. E sem contar o fator idade, pois quem hoje é jovem e sem problemas pode não o ser quando ficar mais velho. Enfim, pensar em acessibilidade é pensar em cidadania. E é também pensar em si, pois nunca sabemos o que pode acontecer conosco no segundo seguinte.

 

  1. Acessibilidade também é uma questão de LUCRO! Há um mercado praticamente inexplorado quando falamos em PcD’s. O contingente é de centenas de milhares de pessoas, com uma demanda retraída gigantesca por produtos, serviços e lazer. Nesse contexto, se os clubes ou agremiações esportivas pensarem sob a ótica econômica, o investimento em acessibilidade nos estádio e locais de esporte é irrisório frente ao lucro que poderão alcançar. Pisos táteis, elevadores, rampas de acesso, portas mais largas nos banheiros, e banheiros especiais, serviços de narração para cegos, cardápios e sinalização em braile etc. Quantas pessoas a mais seriam beneficiadas com essas medidas simples? E isso se traduz em LUCRO para quem tiver visão empresarial.

 

O Brasil precisa acordar e respeitar seus filhos. Especialmente os mais necessitados. Está aí o caminho rumo a uma sociedade mais civilizada e a um modo de vida que realmente traga bem-estar para todos. Encarar a questão da Acessibilidade é uma tarefa de todos, a começar pela mudança urgente de mindset, de nossa forma de pensar e de agir. Só assim mudaremos o conceito errado de que toda pessoa com necessidades especiais é deficiente. E vamos nos surpreender, pois ao darmos condições, veremos que as tais pessoas com deficiência são, antes de tudo, muito, mas muito EFICIENTES!

 

Kate Aguiar e Cássio, abraçados.
Minha amiga, a linda Kate Aguiar (@kateninda) , que é portadora de deficiência visual. O outro rapaz é apenas um certo Cássio. Foto: arquivo pessoal da Kate Aguiar.

 

P.S.1: O Ronald Capita está iniciando um novo projeto, o @Eficientes. Clique aí, saiba mais e siga nas redes sociais.

 

P.S.2: As leis 10.048 e 10.098, além do Estatuto da Pessoa com Deficiência, garantem os direitos das PcD’s; porém, a pergunta que não quer calar é: por que os governos não fiscalizam as arenas esportivas e fazem as leis serem cumpridas??

 

P.S.3: O Globo Esporte fez um guia sobre a acessibilidade mínima nos estádios. Vale a pena conferir clicando aqui.

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