Nagela Gaia

O CORINTHIANISMO DE CADA UM

Eu torço. Tu torces. Ele torce.

Nós torcemos. Vós torceis. Eles torcem.

É Corinthians! É verbo!

em foto de Bruno T. Rolo

 

Fui de setor Norte no jogo contra o Ceará pela Copa do Brasil e vivi uma experiência que mexeu com minha emoção e me fez pensar muito nesse tema.

Em pé, à minha frente, um jovem senhorzinho franzino com uma camisa Kalunga, de 1985, muito surrada e cheia de bolinhas. Cabeça erguida, pulando, cantando, esfregando as mãos, os olhos brilhando de felicidade por estar ali com sua camisa de 34 anos molhada pelo suor da história. A cada jogada eu sentia com clareza seus pensamentos. Seus gestos e olhares valiam mais que mil palavras. Ele socava o ar, fechava os punhos com força empurrando o time, pulava, gritava com toda a sua alma e se sentia importante por estar ali ajudando o Corinthians. Meu coração se encheu de respeito e carinho por ele, eu já não prestava mais atenção ao jogo, fascinada, hipnotizada por aquele corinthiano, ele sim, maloqueiro sofredor.
Meu pensamento voava. Que sacrifícios ele teria feito para estar ali? Quanto custou, para ele, pagar 28 reais no ingresso? Mais 14 reais de metrô?… Será que ele vem sempre ou raramente pode?… Pelas roupas, parecia tão carente de bens materiais… Mas, olha a felicidade dele! Quanta história as bolinhas dessa camisa contam? Quantas vezes essa camisa enxugou as lágrimas dele ou ensopou de suor de tanta felicidade?… Que vontade de abraçá-lo!
Não me passou pela cabeça “Nossa! ele usa camisa pirata!”… “em quem será que ele votou nas últimas eleições?”… (Oi?!)
Me apresentei e perguntei se podia fotografá-lo pra um site. Sorridente, ele permitiu e me disse se chamar Luciano. Expliquei que escreveria sobre “ninguém é mais corinthiano que ninguém” e gostaria de conversar com ele a respeito disso. Orgulhoso, ele disse “Claro! Ninguém é mais corinthiano que ninguém, porque só eu sei a felicidade que estou sentindo.

Combinamos de conversar no intervalo do jogo, mas, no fim do primeiro tempo, veio o poropopó e ele desapareceu na multidão. Frustração. Não o vi mais. Eu tinha tanto a aprender com ele!… Queria muito que o Corinthians tivesse feito um gol, pra comemorarmos juntos, abraçados, coração com coração…

Fiquei pensando em que categoria os “senhores da fiel” incluiriam o sr Luciano. Pois, hoje, muito se discute o corinthianismo de cada um, e é comum lermos, nas redes sociais, ditadores de regra tentando dividir a Fiel em:

fiel direita/fiel esquerda
fiel camisa pirata/fiel camisa original
fiel torcedor/ fiel sofá
fiel corneta/fiel foca
fiel organizada/ fiel comum
Enfim, todo tipo de divisão, tudo sempre carregado de muito preconceito e tentativa de imposição.
Oras… como diz o grande corinthiano Rafa Gil, na hora do gol, quando eu abraço o irmão que está ao meu lado, não pergunto nada sobre ele, só quero saber que ele é corinthiano, que está tão feliz quanto estou e pra mim, isso basta. Outro Rafa que admiro muito, o Rafael Castilho, diz que não existe corinthiano sozinho. “O corinthiano compartilha com os seus iguais esta experiência existencial. Não pode haver Corinthians sem comunhão.”
Torcer para o Corinthians é íntimo e tem a ver com religião, com fé. Como ousam discutir a fé de cada um? Mas temos visto dedos apontados e sentenças proferidas como se fosse um tribunal onde a condenação é rápida e curta: “você não é corinthiano!”. E o corinthiano, acuado, feito “réu”, é obrigado a ouvir, calado, as instruções, se “regenerar” e se juntar aos “bons”, sob pena de calar-se eternamente através do block, não antes de receber um rótulo ao bel prazer do “senhor juiz”. Arrogância. Insolência. Intolerância.

A causa é uma só: Corinthians.

É incrível como pessoas que se reuniram pela mesma causa, o Corinthians, e pelo mesmo sentimento de corinthianismo, conseguem transformar algo tão lindo em um campo de guerra. Foi com tristeza que escolhi esse tema pra coluna desse mês, porque já tentei entender os argumentos de todos, e ninguém me convence que é mais corinthiano do que eu.
A causa é uma só: Corinthians! Foto de Bruno T. Rolo

Cada um torce de um jeito e não existe régua pra se medir o amor do outro.

Cada um tem uma régua que só consegue medir a própria vida, os próprios sentimentos. Até porque o verbo “torcer” não significa apenas apoiar, mas, também, mudar o sentido ou a direção de algo, assim como você torce a roupa lavada. Também quer dizer curvar-se, render-se, ceder, contrair-se, contorcer-se, sentir inquietação, raiva, insatisfação, mostrar desagrado, envolver, enrolar, enroscar…
Será que tem gente que acha que o cara que compra a camisa no camelô não sonha em ter uma original? Considero impossível um corinthiano não se sensibilizar pelo fiel que mora fora de São Paulo e só pode acompanhar o Corinthians pela televisão. Você consegue se colocar no lugar dele na hora do jogo? Como pode outro que se diz corinthiano, chamar esse cara de torcedor de sofá e considerá-lo menos corinthiano porque não vai ao estádio?…
O que dizer do ditador, o que se considera o “porta-voz da fiel”, que usa dos mais estapafúrdios argumentos preconceituosos, se utiliza e se apossa de nossos ídolos, usando-os como justificativa para sua empáfia, dividindo a fiel entre os que votam na direita e os que votam na esquerda? Se você vota como eu voto, você é corinthiano. Se você vota diferente, você nem corinthiano é. Então você está condenado a rótulos, e pronto, acabou!
E os “cornetas” que exigem que os “focas” se manifestem e apoiem suas críticas, muitas legítimas, outras estapafúrdias, resultado da grande paixão… E, onde existe lógica na paixão?… E os “focas” que exigem que os “cornetas” se calem, porque não é possível que sejam corinthianos, tem que apoiar em tudo!… “Eu respeito a sua opinião, mas…” Mas, mas, mas. Respeita nada!

 

Impressiona ver como existem pessoas que se acham inteligentes (muitas até o são!) mas querem ser melhores que os outros e humilham de forma intencional e agem com tanta arrogância e nenhuma empatia. São os que se acham “mais corinthianos que os outros”. No íntimo, pensam que são formadores de opinião, se consideram os donos da fiel, donos da verdade, e assim rotulam. É a turma que passa os dias fazendo discursos na internet, a turma do “thread”, da superioridade moral. São os que tem rótulos prontos para os que pensam diferente deles.

Respeitar o semelhante é respeitar a si próprio, e isso, sim, é ser inteligente!

Ser humilde, valorizar o sentimento puro, independente de cor da pele, da escolaridade, da aparência, da raça, do dinheiro, se mora longe ou se mora perto. Conversar sobre o que pensamos, discutir pontos de vista, mas que seja sem outros interesses e preconceitos, aprender com o outro, fortalecer seu CORINTHIANISMO, isso, sim, é tão lindo, é tão Corinthians!

Foto de Bruno Teixeira Rolo

E já que você chegou até aqui, quero lhe dizer que não importa em quantos jogos você foi desde que nasceu. Não interessa a ninguém a quantidade de camisas do Corinthians que você tem, se são originais ou piratas. Ninguém é mais corinthiano que ninguém. Nem quem vai à Arena hoje, nem a maioria de corinthianos que vai assistir a final do Campeonato Paulista pela TV, ou até os que nem poderão assistir.

O Corinthians aceita você como você é. Eu, você, e todos os 34 milhões de loucos, somos todos corinthianos. Não permita que ninguém lhe diga o contrário e, se disser, deixe-o falando sozinho.

Não vale a pena contribuir pra esse debate inútil.

Vai Corinthians!
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